Cartas que não mandamos

A modernidade, sem dúvida, possui muitas vantagens - isso é inegável. Porém, ela também nos fez perder hábitos que, outrora, eram bem interessantes. Um deles é o costume de se escrever cartas às pessoas queridas.
Quanto sentimento foi perdido por trás da frieza de uma tela de computador?
Hoje mandamos e-mail, deixamos scrap, usamos Time News Roman ou qualquer uma dessas fontes impessoais. Não existe mais o cheiro do perfume borrifado na carta, a letrinha borrada pela tinta da caneta ou uma eventual marca de lágrima caída sobre o papel. A essência de uma carta morreu. Restou o conteúdo, pois, as palavras, graças a Deus, ainda permanecem.
Sou boa em cartas, ainda que virtuais. Escrevo muitas para extravasar meus pensamentos, mas quase nunca as mando. Inclusive, esses dias, depois do momento lindo do outro sábado e diante da agonizante expectativa quanto ao desenrolar dos próximos capítulos de minha história, escrevi uma carta para o João, mas não mandei, como de costume. E nem insistam, pois só vou mandar, caso eu sinta ser muito necessária tal confissão.
Mas, como sou legal e não tenho muito mais o que postar mesmo, resolvi compartilhar a carta que não mandei com vocês. Não me achem ridícula. Aliás, se quiserem, podem achar! Se o Fernando Pessoa disse que todas as cartas de amor são ridículas, por que a minha haveria de não ser? Enfim... chega de blábláblá-whiskas sachê.
Aí vai a carta:
João.
Até quando você vai continuar fugindo de mim e de você mesmo?
Não consigo me convencer de que, pra você, o que vivemos naquele dia foi uma coisa qualquer. Não consigo me convencer, até mesmo, que eu seja uma pessoa qualquer em sua vida. Não encontro explicações para o contato que temos até hoje, mesmo depois das tantas vezes que dissemos “não” ou que anunciamos nosso fim.
Por que sempre voltamos? Por que essa ligação que nunca termina?
Naquele sábado, ao meu ver, fomos muito mais do que dois corpos.
Mas, você já tentou me convencer que nossa relação não era nada além de carnal e eu, por vezes, acreditei que você realmente a enxergava assim. Hoje, não creio mais, sinceramente. Entretanto, na época em que acreditava, eu quis mentir pra mim mesma com o intuito de tentar me convencer de que o que tínhamos não passava mesmo de uma brincadeira. Para isso, cometi atitudes e disse coisas que não eram legítimas. Era tudo uma grande mentira. Não menti por mal, entenda. Foi um desespero circunstancial.
Porém, não me preocupo mais em me enganar. Estou aqui, entregando os pontos, confessando que gosto de você e pedindo apenas a chance de pôr isso em prática.
Deixa isso acontecer, querido. Não tenha medo de mim; de gostar de mim.
Não lhe quero mal e nem fazê-lo perder tempo. Quero que você realize seus sonhos, tenha seus filhos e seu labrador. Não estou brincando com você. Nunca estive.
Peço também, para que você não viva os meus medos. Tive um sonho essa noite, no qual eu encarava uma adversidade enorme e, depois que eu pedia a Deus para me dar forças, tal problema tinha se tornado muito menor. Assim acontece com tudo, em minha vida. Eu sempre sobrevivo. Não tenha medo por mim. E saiba que se eu tiver a verdadeira chance de gostar de você, já vou me dar por satisfeita, mesmo se não dermos certo. Sinto que também preciso disso - ou para me apegar de vez ou para, então, conseguir me libertar, sem achar que te desperdicei.
Entendo que você tenha algo importante a perder e, portanto, não peço para que você tome nenhuma atitude quanto a isso, agora. Mas, será que você tem realmente certeza da solidez disso tudo? Será que a sua procura pela felicidade nesse relacionamento será recompensada, no final? Por que tantas incertezas com relação a esse caminho, querido? Só peço para que você pense nessas questões e não desperdice a possibilidade de ser feliz seguindo por um outro rumo. Siga a sua intuição e desbrave um pouco mais essa outra possibilidade. Não precisa escolhê-la de antemão, apenas peço que a conheça melhor para, então, decidir se quer passar a caminhar por ela.
Estou ciente do risco que corro ao escrevê-lo tais palavras, mas saiba que eu estou muito cansada. Já não me animo mais em jogar, criar estratégias, esperar a hora de você aparecer, elaborar minhas falas e quase nunca dizê-las.
Então, querido, apenas te peço isso: deixe-me gostar de você, que o futuro a Deus pertence.
Beijos.


